“Algumas amizades aquecem o coração… outras apenas alimentam interesses.
‘A Serpente e o Brâmane’ deixa uma inquietação impossível de ignorar: existia amizade verdadeira entre eles, ou o vínculo só sobrevivia enquanto havia benefícios?”
O BRÂMANE E A SERPENTE
Conto tradicional indiano
Certa feita, num certo lugar, vivia um brâmane chamado Haridatta. Malgrado agricultor, o seu labor lhe trazia pouco retorno.
Um dia, ao final de uma tarde quente, o brâmane, vencido pelo calor, deitou-se à sombra de uma árvore para cochilar. De repente, viu uma grande serpente de capelo saindo de um formigueiro próximo. Então pensou consigo mesmo:
— Certamente, é a divindade guardiã do campo, e eu nunca a adorei. É por isso que minha lavoura pouco frutifica. Irei prestar-lhe prontamente as minhas homenagens.
Tendo assim deliberado, pegou um pouco de leite, despejou-o numa tigela, foi até o formigueiro e exclamou:
— Ó Guardião deste Campo! Por todo este tempo eu não sabia que aqui habitavas. Por isso, ainda não te dispensei as devidas honrarias. Peço-te que me perdoes!
E, deixando o leite no chão, seguiu para casa.
Na manhã seguinte, voltou, olhou e viu um dinar de ouro na tigela. A partir de então, todos os dias acontecia a mesma coisa: dava leite à serpente e encontrava um dinar de ouro.
Certo dia, o brâmane teve que ir à aldeia e ordenou ao filho que levasse o leite ao formigueiro. O filho trouxe o leite, colocou-o no chão e voltou para casa. No dia seguinte, voltou e encontrou um dinar.
— Este formigueiro certamente está cheio de dinares de ouro — pensou. — Matarei a serpente e ficarei, de uma só vez, com todas as moedas.
Então, no dia seguinte, enquanto dava o leite à serpente, o filho do brâmane a golpeou na cabeça com um porrete. Mas a serpente escapou da morte por obra do destino e, enfurecida, picou o filho do brâmane com suas presas afiadas. O rapaz caiu morto instantaneamente. Seu povo ergueu-lhe uma pira funerária não muito longe do campo e reduziu-o a cinzas.
Dois dias depois, o seu pai voltou. Quando soube do destino do filho, caiu em profunda tristeza e lamentou a sua morte. Todavia, depois de algum tempo, pegou a tigela de leite, foi até o formigueiro e exaltou a serpente em voz alta. Depois de muito, muito tempo, a serpente apareceu. Pondo apenas a cabeça para fora da abertura do formigueiro, disse ao brâmane:
— É a ganância que te traz aqui e te faz até esquecer da perda de teu filho. A partir de agora, a amizade entre nós é impossível. Teu filho, com a sua insensatez juvenil, me atacou e, em revide, a minha picada levou-o à morte. Como posso esquecer o golpe com o porrete? E como tu podes esquecer a dor e o sofrimento pela perda de teu filho?
Dito isso, entregou ao brâmane uma pérola valiosa e desapareceu.
Contudo, antes de partir, disse:
— Não voltes mais!
O brâmane pegou a pérola e voltou para casa, amaldiçoando a insensatez do filho.
References
2026. https://www.contosdeterror.site/2026/05/o-bramane-e-serpente-conto-classico.html.


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