Uma história de Buda


 

Uma história de Buda


Certa vez, um homem estranho observava Buda atentamente. Ele o observou por alguns minutos, sempre em silêncio; seu olhar mais parecia um raio-X, identificando cada detalhe.

Então, o homem se aproximou de Buda e, quando estava bem perto, sem dizer uma palavra, encheu a boca de saliva e, com muita força, cuspiu no rosto de Buda. Em seguida, afastou-se.

Naquele momento, todos os presentes ficaram sem reação e se perguntavam: “O que foi isso?”. Já os discípulos de Buda ficaram furiosos.

Um dos discípulos, tomado pela ira, aproximou-se de Buda e pediu permissão para dar uma lição naquele homem horrível. Mas, com tranquilidade e paciência, Buda limpou o rosto e disse:
— Nada faça, pois eu cuidarei disso.

Então Buda foi até o homem que o havia cuspido e, quando ficou diante dele, juntou as mãos e agradeceu, dizendo:
— Agradeço de todo o coração por este gesto, pois ele me permitiu enxergar a raiva que ainda havia dentro de mim. Agora ela me abandonou, e por isso sou grato a você e à sua vida.

Depois disso, Buda foi embora.

Os discípulos o seguiram, surpresos com sua atitude, mas compreenderam o ensinamento. Já o homem, sem acreditar no que viu e ouviu, foi tomado por uma mistura de sentimentos: estava comovido e angustiado. Com dificuldade, também foi embora.

O homem foi para casa e tentou dormir, mas não conseguiu. A cena de antes não o deixava pegar no sono. Quando o dia amanheceu, decidiu voltar e falar com Buda.

Ele aguardou e, quando viu Buda, prostrou-se aos seus pés. Buda sorriu com carinho. O homem, sem conseguir encará-lo, disse:
— Perdoe-me pelo que lhe fiz ontem.

Com expressão serena, Buda levantou o homem do chão e disse:
— Assim como o fluxo das águas nunca é o mesmo, nenhum homem é igual ao que foi antes. Eu não sou o mesmo que esteve com você ontem, e aquele que aqui está não é o mesmo que ontem me cuspiu. Também não vejo mais ninguém tão bravo quanto aquele homem. Você não é mais o homem de ontem, e nada fez contra mim agora; portanto, não há o que eu precise perdoar.

As duas pessoas — a que cuspiu e a que recebeu o cuspe — já não estão mais aqui. Então, vamos falar de outras coisas.


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