Ali Babá e os Quarenta Ladrões
Autor
desconhecido
Numa distante cidade do Oriente,
num local próximo a um oásis, vivia um homem bom e justo, chamado Ali Babá. Ele
era muito pobre, morava em uma tenda com sua mulher Samira e seus quatro
filhos.
Para sustentar sua família, ele
oferecia seus serviços aos mercadores que passavam por ali, cuidava dos camelos
e em troca recebia algumas moedas. Os mercadores gostavam muito dos seus
serviços e às vezes lhe davam algumas moedas como gratificação.
Qualquer dinheiro era muito
bem-vindo porque sua família precisava, muitas vezes passavam meses sem que
qualquer caravana passasse e, para que não passassem fome, ele ia até o oásis
colher tâmaras que eram depois vendidas pelos seus filhos no bazar da cidade.
Um dia, quando colhia tâmaras no
oásis, ouviu um grande ruído de cavalos apressados. Ele achou muito estranho
porque não era comum ver cavalos naquela região. Ficou escondido, olhando de
longe e viu que eram quarenta homens em cavalos muito fortes, carregados de
arcas, cofres e sacos.
De longe, viu que eles pararam
bem em frente a uma grande pedra que havia num local ermo do oásis. Ali Babá
ficou muito curioso e resolveu chegar mais perto para descobrir quem eram
aqueles homens.
Escondido ele se aproximou e
subiu em uma grande tamareira e ficou ouvindo a conversa deles. Ele viu que
eram todos homens mal-encarados, todos armados com facas enormes nas cinturas.
Então um deles falou:
— Vamos, vamos! Chega de folga!
Temos de descarregar tudo isso que roubamos hoje e voltar logo para a cidade.
Amanhã é outro dia! — disse o chefe.
Ali Babá quase caiu da tamareira
ao descobrir que eram todos ladrões.
O chefe do grupo desceu do
cavalo, caminhou até a grande pedra e falou:
— Abre-te, Sésamo!
De repente, a pedra começou a se
abrir como se fosse uma porta, todos os homens entraram e pouco tempo depois
saíram com os cavalos descarregados.
Novamente, o chefe do brando
ficou em frente a pedra e falou:
— Fecha-te, Sésamo!
A pedra rolou direitinho,
fechando a entrada do esconderijo. E assim, foram embora.
Ali Babá esperou assentar a
poeira levantada pelos animais e saiu de cima da tamareira. Ele ficou pensando
e resolveu fazer o mesmo que o chefe dos ladrões para entrar na caverna.
Ficou na mesma posição do ladrão
e arriscou:
— Abre-te, Sésamo!
A grande pedra rolou, abrindo a
entrada da gruta. Ali Babá entrou imediatamente e ficou maravilhado com o
tesouro que viu.
Quando já estava de saída,
lembrou-se de que tinha, preso na cintura, um saquinho de pano, onde trouxera
uns pedaços de pão para o almoço e pensou consigo mesmo:
“E se eu levasse algumas dessas
moedas de ouro em meu saquinho? Acho que os ladrões nem perceberiam. Eles têm
tanto. Mas isto seria um roubo. Eu seria um ladrão, roubando ladrões.”
Depois, pensou na vida difícil da
mulher e dos filhos, encheu seu saquinho com pesadas moedas de ouro e foi
embora. Na saída, repetiu as palavras mágicas:
— Fecha-te, Sésamo!
Ali Babá voltou ao lugar onde
estivera colhendo frutas, pegou os cestos e foi para casa. No caminho, pensava
no que iria fazer com as moedas.
Naquela noite ele nem dormiu
direito, resolveu que no dia seguinte falaria com seu irmão Ali Mansur que era
um rico comerciante de tapetes na cidade.
No dia seguinte ele acordou bem
cedo e foi à casa do irmão. Ali Mansur era um homem mesquinho e ambicioso.
Quanto mais tinha, mais queria. E nunca ajudava o pobre irmão, nem seus filhos.
Ao ouvir a história da gruta que
se abria, Ali Mansur pensou que o irmão estivesse brincando. Depois, como Ali
Babá insistisse, começou a achar que ele estava com febre.
Só acreditou em tudo aquilo
quando o irmão lhe mostrou o saquinho com as moedas de ouro. Os olhos de Ali
Mansur reluziam de cobiça, avaliando o peso de cada uma.
— Ali Babá, diga-me exatamente
onde é esse lugar e o que se deve dizer para abrir e fechar a pedra. Amanhã vou
até lá!
— Não, Mansur, não vá. É
perigoso. Os ladrões podem aparecer a qualquer momento. Nunca mais ponho meus
pés naquele lugar horrível. Já estou arrependido por ter tirado essas moedas.
Dinheiro que não vem do trabalho não é honesto.
— Deixe de ser bobo, Ali Babá. Se
não quiser as moedas, deixe-as comigo. Sei muito bem como e onde usá-las.
Ali Babá foi para casa. Samira
logo percebeu que tinha algo errado com o marido, então ele contou tudo para
ela sobre o que tinha visto, sobre as moedas que pegou e sobre a conversa com o
irmão.
Samira acalmou o marido que se
sentia mal por ter roubado aquelas moedas:
– Meu querido, somos tão
necessitados, e eram ladrões, esse dinheiro não fará falta a ninguém – falou
sua esposa.
Na manhã seguinte, bem cedo, a
esposa de Ali Mansur apareceu na tenda de Ali Babá perguntando do irmão. Disse
que ele havia saído assim que Ali Babá tinha ido embora no dia anterior e não
tinha voltado para casa.
Ali Babá sentiu na hora que algo
de ruim tinha acontecido, sabia que o irmão não aguentaria a cobiça e iria à
grande pedra roubar os ladrões.
Ali Babá deixou a cunhada em sua
casa e foi à procura do irmão. Chegando na caverna falou:
– Abre-te Sésamo!
A pedra se abriu e o que ele viu
o deixou muito entristecido. Seu irmão havia sido assassinado. Provavelmente
foi pego pelos ladrões roubando seus tesouros e morreu por isso.
Ali Babá o amarrou na sua mula
que também estava lá dentro, retirou o irmão da caverna e o levou embora. No
caminho percebeu que os cestos que estavam na mula estavam cheios de tesouros,
mas não quis voltar.
Ele voltou para casa e contou
tudo à cunhada, enterraram o irmão e dividiram os tesouros, um cesto para cada.
No dia seguinte os ladrões
voltaram à caverna e perceberam que mais alguém sabia do segredo deles, viram
que o homem e a mula haviam sumido e decidiram que pegariam quem fez isso.
– Vamos ficar atentos, assim que
soubermos de qualquer pessoa que ficou rica de repente, saberemos que é o
ladrão que nos roubou. Fiquem de olho! Eu quero vingança!
Um mês depois, Ali Babá comprou
uma casa na cidade, dois belos cavalos, pôs os filhos na escola e adquiriu
móveis, roupas e utensílios novos. Em sua casa não faltava mais comida e, uma
vez por semana, distribuía pão e leite para os pobres.
Um dos ladrões, encarregado de
fiscalizar a vida dos moradores daquele lado da cidade, percebeu a generosidade
de Ali Babá e perguntou a um vizinho:
— De onde veio esse homem tão
bom?
— Ah, chama-se Ali Babá. Era um
pobre coitado que cuidava dos camelos das caravanas e vendia frutas no bazar.
De repente, apareceu com moedas de ouro, colares de esmeraldas e pulseiras de
rubi. Ele vendeu as joias e comprou a casa, os cavalos, as roupas, tudo!
Ninguém sabe onde arranjou tanta riqueza. Acho que ganhou de algum mercador,
por ser muito honesto…
O ladrão correu para seu chefe e
disse:
— Achei o homem! Chama-se Ali
Babá! Agora o senhor poderá se vingar.
No dia seguinte, o chefe dos
ladrões se disfarçou de mercador, preparou vinte mulas, cada uma carregando
dois enormes jarros de barro, e foi bater na casa de Ali Babá.
— Boa tarde, meu bom homem. Sou
um mercador de azeite. Acabei de atravessar o deserto. Será que posso descansar
um pouco em sua casa com minhas mulas?
— Sim, entre, por favor — disse
Ali Babá — Deixe as mulas no pátio para tomarem água.
— Obrigado. Vou descarregá-las
para que descansem até amanhã. Tenho de levar todo o azeite que está nestes
quarenta jarros até a cidade de Bagdá, que é bem longe daqui.
— Amanhã o senhor pensará nisso.
Agora, venha. Quero que tome um banho e jante com minha família, antes de
dormir.
Ali Babá pediu para Samira
preparar carne com azeitonas e salada com trigo para o visitante.
Apresentou-lhe seus quatro filhos e ficaram conversando animadamente.
Na cozinha, Samira percebeu que
não tinha mais azeite para temperar a salada.
— Meu filho, venha cá! — chamou a
mulher. — Vá comprar azeite.
— Mas, mãe, agora é tarde. Já
está tudo fechado
— Por Alá! E o que vou fazer? Com
que vou temperar a salada para o mercador?
— Ora, mãe, ele não está
carregando azeite naqueles jarros enormes? Pois é muito fácil: desça até o
pátio e pegue um pouquinho.
— Bem, não há outro jeito. E o
que vou fazer.
Samira desceu até ao pátio de sua
casa. As mulas já estavam todas recolhidas ao estábulo. Os quarenta jarros
permaneciam no meio da área, iluminados por uma grande lua cheia.
Ao chegar perto de um deles,
Samira ficou estupefata. Uma voz, vinda de dentro do jarro, perguntou:
— Já está na hora de matarmos Ali
Babá e sua família?
Samira não sabia o que fazer. Se
se afastasse bruscamente, poderia levantar suspeitas. Chegou então perto do
outro jarro, esperando nova pergunta, mas nada!
Tudo ficou em silêncio. O segundo
jarro estava mesmo cheio de azeite. Então, a conclusão de Samira foi rápida:
ela sabia que os ladrões de Sésamo eram quarenta. Ora, em trinta e nove
daqueles quarenta jarros enormes havia homens escondidos e apenas um deles
continha azeite. E o visitante que estava dentro de sua casa era, sem dúvida, o
chefe dos ladrões. Ele trouxera azeite num dos jarros porque, se alguém lhe
pedisse, ele poderia provar que era um mercador.
Samira saiu de casa na mesma hora
e foi chamar os guardas do palácio do sultão, que não ficava muito longe dali.
Depois, voltou depressa para
casa, foi à cozinha e preparou um sonífero perfumado, à base de ervas do oásis.
Em seguida, desceu novamente ao
pátio e despejou um pouco do sonífero em cada um dos trinta e nove jarros.
Quando terminou, viu que os
guardas já haviam chegado. Mandou-os entrar e ficar aguardando do lado de fora
da sala, onde Ali Babá conversava com o chefe dos ladrões.
Esperou mais alguns minutos e, ao
ter certeza de que todos os ladrões dormiam profundamente dentro dos jarros,
entrou na sala e disse:
— Ali Babá ! Tenha cuidado! Este
homem é o chefe dos ladrões de Sésamo!
— Mas… mas — balbuciou o marido,
incrédulo.
— Sim, sou eu! — disse o ladrão.
E, tirando um punhal da cintura acrescentou:
— Agora, vocês vão morrer!
Nesse momento, os guardas
entraram na sala, desarmaram e prenderam o homem.
Enquanto descia, já preso, o
chefe dos ladrões viu todos os seus companheiros amarrados e amontoados no
chão, dormindo.
Ali Babá e Samira foram ao
palácio do sultão e contaram toda a história de Sésamo, pedindo a ele que
distribuísse aquela riqueza aos pobres da cidade.
O sultão concordou com o casal,
mas fez questão de dar a Ali Babá um terço de tudo que havia dentro da
pedreira.
Assim, graças à bondade de Ali
Babá e à inteligência de Samira, nunca mais houve pobres naquela cidade.
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